Uma inspiração e motivo para parar e pensar

Texto por Rita MArtins em 14/03/2019

Poder criar, tratar, acompanhar e brincar com a minha filha a tempo inteiro foi uma benção que muitas outras mães usaram como pedra para me atirar.

Ora a Menina ia ter problemas de integração, ora a Menina ia ter problemas de desenvolvimento, ora a Menina ia ser uma menina incapaz de partilhar, agarrada, mimada, viciada na mãe, com manhas de menina impertinente.

A Menina também ia chorar desesperadamente no primeiro dia de aulas e, ai meu deus, o que ela ia sofrer com a adaptação à língua francesa – culpa de eu SÓ falar português (a minha língua materna, prova das minhas raízes) com ela.

Aos olhos delas, chamemos-lhes as “amigas”, eu era uma sopeira, empregada doméstica sem rendimento, um peso no ombro do meu marido que, se me deixasse, também me arruinaria a vida pois, sem salário, eu iria viver do quê?!

Em 2013 deixei o meu trabalho na Banca, trabalho que consegui à custa de muito esforço. Dediquei-me à minha gravidez, à minha filha, ao meu marido, à minha casa. Jamais a mim mesma por si só, pois nunca senti necessidade de o fazer.

No final de 2018 tudo mudou e, mesmo sem champanhe, brindei a um novo ano cheio de novos objectivos. A 3 de Janeiro fui a primeira a sair de casa, arranjada e maquilhada a medo, pois há anos que não o fazia. O passo estava dado, a decisão tomada em família.

Passou-se 1 dia, 1 semana, 1 mês, 2 meses, e continua…

A Menina não chorou na escola (tal como não chorou em Agosto, quando começou o 1o ano obrigatório), nem no Extra-escolar, nem na cantina – pelo contrário, chorou porque queria ficar “mais uns poucos”, como ela diz.

A Menina não teve problemas em se adaptar, partilhar, falar francês, usufruir daquilo que a idade lhe permite.

Hoje continuo a ser mãe a tempo inteiro, porque ninguém me tira esse papel, mesmo quando não estou presente. Sou mulher. Sou trabalhadora. Sou dona de casa, mesmo quando não tenho forças para o ser. Diria que sou eu a 200%, porque nunca me senti abaixo de 100.

Não acho que tenha menos tempo para mim, pelo contrário. Acho apenas que comecei a dar prioridade ao que precisa de ser prioritário. Ainda estou em período de adaptação. O meu marido também. A nossa filha idem. A casa nem sempre está limpa como queríamos. O jantar nem sempre está na mesa a horas e, mesmo estando, nem sempre é o que desejávamos – mas, hey, a vida é mesmo assim e há coisas mais importantes.

Aos olhos das “amigas” deixei de ser a sopeira a viver às custas de alguém . Agora sou uma viciada em trabalho, sem tempo para a minha filha. Aposto que também dizem que estou mais gorda, porque já não tenho “tempo livre a mais”, o que me impede de fazer as minhas caminhadas. Para além disso, devem achar que, eventualmente, o meu marido se vai cansar de não me ver e me vai trocar por uma miúda de 25.

As “amigas”, como gosto de as apelidar, são outras mulheres, algumas mães, outras tias, outras primas. São pessoas que sabem o desdobramento que fazemos à nossa própria vida para podermos estar em todo o lado, a fazer 20 coisas em simultâneo e ainda assim com tempo para preparar mais um lanchinho.

Essas mulheres são, também elas, vítimas da sua própria condição: apontam dedos sem se lembrarem de que há tantos outros apontados na direção delas, especialmente quando viram as mãos para olharem para as suas perfeitas unhas de gel (e só aí são 10 dedos).

As histórias de café passam agora por nós, mulheres, vitimas de um mundo de gente cruel que diminui, espezinha, manipula, agride, viola, mata… Se ja sofremos tanto nas maos dos outros, seja numa escala mais ou menos forte, deixemo-nos de sofrer nas nossas próprias mãos – este mundo já está pôdre qb!

E se se sentem indignadas porque acham que estou a exagerar e, também eu, a diminuir o papel da mulher, pensem na forma como por vezes somos tratadas, ao estilo fantoche, nas mãos de outras mulheres – que nos criticam, poem de parte, diminuem e tentam manipular. Não, os maus não são só os homens…

Nunca nenhum homem me chamou gorda. Nunca nenhum homem me gozou por estar solteira. Nunca nenhum homem me olhou de lado por estar a dar um raspanete à minha filha, no meio da rua (e não foi por desleixo, mas por entendimento). Nunca nenhum homem me disse que era má mãe por trabalhar a tempo inteiro.

Que mundo é este, minhas senhoras, onde sorrimos para outra mulher enquanto desdenhamos dela? Que mundo é este onde lutamos pela igualdade de género e, em simultâneo, alimentamos a desigualdade dentro do mesmo, sem dó nem piedade?!

Nao, a minha crónica perdida no tempo não fala de hábitos alimentares, não critica dietas tontas nem vos manda dar a volta ao quarteirão. No entanto, estão todas convidadas a sentarem-se à mesa comigo, para debatermos este tema tão importante, enquanto vos sirvo uma caneca de chá e um prato de panquecas americanas que, hey, sim, podem acompanhar com 1 banana, alguns mirtilos e uma fatia de bacon tostado, tudo regado com um fio de xarope de ácer – e ai de quem vos diga o contrário! Não percam a vossa voz

Não percam a vossa voz perante ninguém, especialmente quando se tratar da vossa vida – pessoal, familiar…

Embora as desculpas não se peçam, eu confesso que não tenho conseguido evitar o distanciamento que vos faço sentir em relação às minhas crónicas e outras publicações. A vida é assim, feita de escolhas e prioridades e, neste momento, a minha prioridade é o tempo livre que me sobra para a minha família.

E se neste momento alguém estiver a pensar “se fosses como eu e tivesses 20 filhos em vez de 1, queria ver como é que era”, tenho-vos a dizer: “se quiserem que eu me ponha nos vossos sapatos, lembrem-se que eu calço o 41/42.

A todas, sem igual, nunca duvidem que são capazes de alcançar o inalcançavel, mesmo que leve o seu tempo!

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